02/04/2021

Leituras 2021: O carteiro de Auschwitz, Joe Rosenblum


O mercado português está, neste momento saturado de livros sobre este tema, o Holocausto em si, os seus sobreviventes, as suas histórias, romances, relatos verídicos e histórias mais ou menos bens construídas. O nosso papel enquanto leitores é, na minha modesta opinião, saber escolher os livros certos. Eliminar da lista aqueles somente para promover o autor, sem o devido rigor, sem o devido respeito pelo tema e talvez com quase exclusivo propósito o lucro e/ou a auto-promoção!

Eu leio muito sobre este tema, gosto de histórias que me dão a conhecer factos reais, mas que se apresentam às vezes, e porque não, numa história bem contada e que nos toca. Afinal não é esse o propósito de um autor? Contar histórias que permaneçam nos seus leitores? Que possam ser recontadas e nunca esquecidas? 

E foi o que este livro nos contou, uma história, a de Joe, dos acontecimentos trágicos que o marcarem e à sua família judia na Polónia aquando da invasão da Alemanha. A história que Joe nos conta retrata a convivência diária com a morte, com os abusos, com a perda de recursos, a perda e separação das famílias e o constante terror de ser executado ou enviado para um campo de concentração. 

Joe dá-nos a conhecer duas realidades quase paralelas, a dos gentios e a dos judeus. Os gentios os habitantes locais não judeus, com a fisionomia ariana, não sofriam abusos, mas tinham de servir os alemães, cultivar comida, criar gado e suprir as necessidades das tropas alemãs Mas os judeus eram sacrificados, maltratados, abusados e condenados aos trabalhos mais duros sem condições nenhumas e a juntar a isto quase nenhuma comida. Joe passando por gentio, sobrevive, com a conivência de uma família polaca, a trabalhar numa quinta, e desta forma conseguia trazer comida para a família, que ia resistindo numa casa na quinta que tinham.

Não bastando esta realidade dura, Joe ajuda ainda a resistência russa, contrabandeando comida, ajudando a colectar armas e a tentar sobreviver, até ao dia que é apanhado e enviado para um campo de concentração. Se as descrições foram duras e penosas até aqui, deixem-me contar que a realidade retratada por Joe no campo de concentração é dura, chocante, o que ele fez para sobreviver, o que ele comeu... pomo-nos a pensar como foi possível tamanha crueldade, como é que um ser humano pode tratar o outro assim.

Joe dizia que sobreviveu porque estava sempre ocupado, mantinha-se o mais asseado possível, aproveitou as oportunidades que apareceram e claro teve alguma dose de sorte, pois algumas vezes a morte passou-lhe ao lado... não consigo conceber como alguém sobrevive a isto e fica inteiro. Como é que a pessoa volta a confiar, a viver e não somente sobrevive ao dia a dia. Joe sobreviveu, viveu e conseguiu ser feliz. Coloca este passado arrepiante, a dor e as mortes a que assistiu sob a forma de um livro. E porquê? Para que nunca nos esqueçamos, para que a família e todos os que não puderam contar a sua história não fossem esquecidos e, quem sabe, para que pudéssemos ajudá-lo a carregar o peso das suas memórias.

Não é um livro fácil de ler, mas é um livro que deve ser lido, ler é viver e viver é não esquecer!


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